
Por Wagner Geminiano
Doutor em História (UFPE)
Pós-doutor em Políticas Públicas de Educação – Ghent University (Bélgica)
Retomo a análise sobre o governo Raquel Lyra e da própria governadora, desta vez sob a ótica da construção política. Transcorridos quase três anos de mandato, já é possível delinear um perfil claro. Nesse sentido, podemos caracterizar ambos do seguinte modo: trata-se de um governo politicamente indefinido, sem posição clara – assim como a própria governadora, que, ideologicamente, não assume qualquer posicionamento. Muitas vezes, parece que sua posição é justamente não ter posição.
Essa postura poderia se restringir apenas ao ponto de vista institucional, já que governos precisam lidar e dialogar com diferentes correntes e posições ideológicas. No entanto, quando ultrapassa essa seara e contamina a imagem da governadora, torna-se um problema. Afinal, um(a) governador(a) de estado, antes de qualquer coisa, é uma liderança política. Precisa assumir posições claras, ter lado e defender suas convicções políticas e ideológicas. Todas as grandes lideranças historicamente reconhecidas foram forjadas na batalha por suas posições. Mas Raquel tem preferido não assumir posição alguma. E, na política, ficar em cima do muro é o pior dos mundos, sobretudo para uma governadora que acalenta pretensões de liderança e busca a reeleição.
Esse traço contrasta com outra característica do perfil político de Raquel Lyra: a centralização nas tomadas de decisão, que muitas vezes beira o autoritarismo estéril. Caso emblemático ocorreu já no segundo dia de governo, quando, de uma única canetada, a governadora exonerou todos os cargos comissionados do estado. Quis mostrar força política, enviando o recado de que governaria passando o estado a limpo de seus adversários. O cálculo político, no entanto, não resistiu a uma lufada de realidade: seu governo iniciou em meio ao caos administrativo, sem uma rede de comando capaz de ocupar a estrutura do estado e fazer cumprir suas ordens. O recuo veio já na semana seguinte.
De lá para cá, essa postura tem se repetido, e as duas características contrastantes – indefinição política e centralismo autoritário – lhe trazem mais problemas que soluções. Os números das pesquisas eleitorais são um retrato disso. Não se posicionar claramente em um estado que historicamente sempre reverberou posições firmes é pecado mortal. Com isso, Raquel não transmite confiança ao eleitorado – nem à maioria lulista, tampouco ao bolsonarismo militante. Isso a fará ser a primeira incumbente a ir às ruas sem ter formado uma militância para chamar de sua.
Na ausência dessa militância orgânica, Raquel preferiu arregimentar apoio político mediante o uso da força da máquina do estado, cooptando prefeitos e vereadores. E aqui se sobressai novamente sua característica centralizadora: a cooptação não decorre de alinhamento político orgânico ou ideológico, mas exclusivamente do que a máquina do estado pode oferecer às bases de prefeitos e vereadores.
Assim, a governadora construiu uma base política ideologicamente frágil, com pouca capacidade de engajamento digital e de mobilização nas ruas. Mesmo com uma imensa maioria de prefeitos que afirmam apoiá-la, não consegue traduzir isso em bons números nas pesquisas eleitorais para o pleito vindouro.
A um ano das eleições de 2026, Raquel Lyra enfrenta um desafio político enorme: assumir uma posição clara sobre a própria imagem de liderança que levará às urnas, em diálogo com aliados que possam, de fato, se assumir organicamente como militantes de seu governo.

























