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Marisqueiras de Igarassu fortalecem renda e dignidade com apoio de políticas públicas

A pesca artesanal segue sendo fonte de sustento para mais de 200 famílias na Praia do Capitão, conhecida como Mangue Seco, em Igarassu. O trabalho, realizado principalmente por mulheres, acontece diariamente entre a lama do mangue e a areia da praia. Nos últimos anos, porém, essas trabalhadoras passaram a ter acesso a políticas públicas que ampliam oportunidades de educação, qualificação e melhoria da qualidade de vida.

Selma Maria da Conceição, de 53 anos, é uma dessas marisqueiras. Natural de Itambé, na Paraíba, ela deixou o trabalho na roça para viver da coleta de mariscos. A atividade também carrega forte identidade cultural: enquanto trabalham, Selma e as colegas mantêm viva a tradição de cantar coco, ciranda e brega.

A organização da categoria acontece por meio da Colônia Z-20. À frente da entidade está Edvalma Ramalho Santos do Carmo, filha e neta de pescadores. Como presidente, ela representa mais de cinco mil pessoas e atua na defesa de direitos trabalhistas, como auxílio-doença, salário-maternidade e aposentadoria.

A colônia também mantém parcerias institucionais que garantem o cadastramento anual das trabalhadoras em programas como o Chapéu de Palha. Segundo Edvalma, a categoria passou a ter maior visibilidade no município a partir de 2021, durante a gestão da prefeita professora Elcione Ramos. Desde então, iniciativas voltadas à alfabetização, distribuição de cestas básicas, acesso a creches e atenção à saúde da mulher vêm sendo ampliadas.

Um exemplo é a Creche Tia Nai, que atende cerca de 120 filhos e filhas de marisqueiras, oferecendo apoio às mães que trabalham no mangue.

Outra iniciativa que tem impactado a vida das trabalhadoras é o Complexo de Tecnologia, Empreendedorismo e Negócios (CTEN). Edilene Maria de Lima é uma das marisqueiras que encontrou novas oportunidades por meio do espaço, que oferece cursos práticos nas áreas de gastronomia, artesanato e orientação sobre direitos das mulheres.

A gestão municipal também implementou medidas voltadas à preservação do ecossistema costeiro. Entre elas, a regulamentação do uso das redes de pesca do tipo jereré, permitindo apenas malhas de tamanho 12, consideradas mais adequadas e sustentáveis para a região.

No campo da qualificação profissional, marisqueiras formadas pelo CTEN participaram de atividades práticas e mentorias técnicas ao longo do ano. A gastrônoma Negra Linda acompanhou parte desse processo, orientando o desenvolvimento de novas receitas e produtos culinários elaborados em parceria com o instituto que leva seu nome.

A saúde também recebeu atenção especial. O projeto municipal “Um Novo Olhar”, realizado pelas secretarias de Saúde e Educação, já distribuiu cerca de 50 óculos para marisqueiras que estudam na Educação de Jovens e Adultos (EJA). A iniciativa conta ainda com a parceria da Fundação Altino Ventura, responsável pelos exames oftalmológicos que ajudam a identificar precocemente problemas de visão, como a ambliopia.

Na área educacional, o município também atua para reduzir a evasão escolar no distrito de Nova Cruz. Pescadores e marisqueiras foram integrados às turmas da EJA na comunidade de Pirajuí. As aulas acontecem na Escola José Luiz de Barros Sampaio, de segunda a sexta-feira, das 18h30 às 22h.

O objetivo é ampliar conhecimentos e preparar a comunidade para oportunidades ligadas ao Turismo de Base Comunitária. O projeto conta com parceria do Hub de Inovação Canoa Grande, que oferece cursos profissionalizantes.

Outro passo importante foi a criação do projeto “Igarassu na Rota das Marisqueiras”, lançado em março de 2024 pela Secretaria de Políticas Sociais. A iniciativa busca fortalecer a gestão coletiva e qualificar o processo produtivo local.

As participantes têm acesso a consultorias em planejamento estratégico, manipulação de alimentos, design e identidade visual. A meta é inserir os produtos em novos mercados e estimular o turismo de base comunitária.

Com a integração dessas ações, as marisqueiras de Igarassu passam a unir tradição cultural e novas oportunidades de geração de renda. O acesso à educação, saúde e capacitação tem garantido mais dignidade e autonomia para mulheres que seguem mantendo viva uma atividade histórica do litoral pernambucano.

Leticia Lima

Jornalista diplomada pela Uninassau

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